| 25/01/2010 - O Brasil é um dos principais produtores de grãos, com previsão de colheita de 135 milhões de toneladas até o final de 2009, representando pouco mais de 6% da produção mundial. Quando o assunto é etanol, o País é responsável pela produção de cerca de 27 bilhões de litros, além de ser o maior produtor e exportador de açúcar. O País se destaca, ainda, pelas condições favoráveis que dispõe para o seu desenvolvimento: domínio de 13% da água doce do mundo, clima favorável, tecnologia de ponta na agricultura e agroindústria avançada.
Esses fatores colocam o Brasil em posição privilegiada no cenário agrícola mundial e atribuem ao País um grande desafio para a próxima década: produzir mais alimentos e biocombustíveis para atender os mercados interno e externo sem aumentar áreas de plantio que impliquem desmatamento. Dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o País possui potencial de área agricultável de 133 milhões de hectares, sendo que 77% são resultados da conversão de pastagens e distribuídos em diferentes Estados, principalmente Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins.
Em setembro de 2009, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgou o Zoneamento Agroecológico da Cana-de-Açúcar para a produção de etanol e açúcar. O objetivo do governo federal é fornecer subsídios técnicos para formulação de políticas públicas, visando a expansão e produção sustentável de cana-de-açúcar no território brasileiro. As estimativas obtidas demonstram que o País dispõe de cerca de 64,7 milhões de hectares de áreas aptas à expansão do cultivo com cana-de-açúcar.
As áreas aptas à expansão cultivadas com pastagens representam cerca de 37,2 milhões de hectares. São valores considerados grandes, já que a atual área plantada da cultura é de 8,2 milhões de hectares. Essas estimativas demonstram que o País não necessita incorporar áreas novas e com cobertura nativa ao processo produtivo, podendo expandir ainda a área de cultivo com cana sem afetar diretamente as terras utilizadas para a produção de alimentos.
A expansão da área agrícola no Brasil, seja para a cana ou grãos, se justifica pela crescente demanda mundial por alimentos, devido à diminuição da população abaixo da linha de pobreza e a busca por fontes renováveis de energia, como o etanol. Para que o País consiga atender a demanda interna e externa de cana-de-açúcar e grãos – soja, milho, trigo, arroz e algodão até 2020, serão necessários 70 milhões de hectares de terras, um crescimento de 19 milhões de hectares se comparado aos atuais 51 milhões já em cultivo. Segundo pesquisa da WWF Brasil e Seguradora Allianz, é possível dobrar a área agrícola nacional sem causar desmatamento ao Bioma Amazônico ou regiões intocadas do Cerrado, apenas com a recuperação das pastagens degradadas. Para especialistas e representantes de entidades ligadas ao setor sucroalcooleiro, a expansão agrícola, principalmente da cultura da cana-de-açúcar, terá que ocorrer de forma planejada e sustentável, exatamente em áreas degradadas ou subutilizadas por pastagens e respeitando as legislações federais e estaduais em vigor, como reserva permanente e legal, além dos acordos individuais firmados com os Ministérios Públicos nos Estados.
Segundo o CEO da Kleffmann Brasil, Lars Schobinger, nas últimas cinco safras o agricultor brasileiro conseguiu obter maior produtividade sem aumentar a área plantada que representasse risco de desmatamento aos biomas brasileiros. "Para não desmatar, é preciso usar as terras disponíveis, e as melhores que se têm são áreas preparadas para pastagem ou áreas já ativas. O desafio é aumentar a eficiência na pecuária. Com um pequeno ganho nisso, passaremos a ter muita terra disponível", revela. O diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Antônio de Pádua Rodrigues, garante que investir em pesquisa e novas variedades poderá ser o caminho para o aumento da produtividade na cultura da cana-de-açúcar, sem expandir a área agricultável que possa causar desmatamento. "É possível aumentar em 30% a 40% a produção de etanol no Brasil sem que isso represente o desmatamento de áreas intocáveis. O desenvolvimento e lançamento de variedades, melhor logística e utilização de áreas de recuperação são fatores primordiais para que a cultura da cana mantenha sua expansão sem agredir o meio ambiente", reforça.
Já o diretor superintendente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Copercana), Manoel Ortolan, afirma que o setor canavieiro precisa continuar cumprindo a legislação ambiental e investir no aumento de tecnologia e infraestrutura em campo para obter maior produtividade. No Estado de São Paulo, onde a cana deverá ocupar 5,46 milhões de hectares no próximo ano, com aumento de 1% em relação a 2009, a expansão tem ocorrido em áreas de pastagens degradadas e com investimentos na capacitação de mão-de-obra e aprimoramento da mecanização da lavoura. "Não há dúvidas de que o maior gargalo do setor é a questão da infraestrutura. Com a cana se interiorizando, rumo ao Centro-Oeste do País, o Estado de São Paulo se torna cada vez mais competitivo, devido a sua localização e o seu custo de produção vantajoso", ressalta. Para o ambientalista e jornalista Washington Novaes, como a cana-de-açúcar está em plena expansão, principalmente para o interior do País, o desafio é avaliar como será o crescimento das áreas de plantio nesses locais. "Não faz sentido desmatar o Cerrado e o Pantanal para a expansão da cultura, por exemplo, se 50% das áreas de pastagem em Goiás estão em locais de degradação. É preciso fazer uso dessas possibilidades", destaca.
Washington alerta para a necessidade de preservar o Cerrado, já que é o bioma mais ameaçado pelo desmatamento, com pouco mais de 3% de áres protegidas. "Por isso reforço a importância da expansão de forma sustentável, em áreas que já estão disponíveis para conversão de pastagens e outras terras degradadas", informa Novaes.
A pesquisa da WWF Brasil e Seguradora Allianz mostra que, nos próximos dez anos, a abertura de novas áreas de produção poderá representar a expansão agrícola de 9,8 milhões de hectares, ou 18% das áreas de Cerrado potencialmente agrícolas, de acordo com o Código Florestal vigente. As maiores aberturas ocorreriam no Mato Grosso, Bahia, Piauí, Maranhão e Tocantins.
O estudo aponta a necessidade de criação, promoção e implementação de sistemas de certificação voluntários, como a RTRS (soja) e o BSI (cana), com normas socioambientais que incluem a expansão agrícola sobre áreas já abertas, sem desmatar o Cerrado.
A conversão de terras degradadas poderá contribuir para a expansão agrícola e, consequetemente, para o aumento de volume e receita obtidos pelos produtos agrícolas nacionais
Barreiras e investimentos
Para acompanhar a expansão agrícola, o Brasil terá que se preocupar, além do desmatamento, com problemas que já afetam a agricultura, principalmente o setor sucroalcooleiro. Dados da WWF Brasil e Seguradora Allianz revelam que uma das principais barreiras para a expansão agrícola brasileira é a carência de infraestrutura e logística que, além de dificultar o escoamento da produção agrícola, encarece o produto nacional.
Para o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e Álcool no Estado de Pernambuco (Sindaçúcar), Renato Cunha, é preciso investir no aperfeiçoamento da logística de transporte, com a implementação de sistemas informatizados, alcooldutos em áreas de grande produção e demanda, navios de maior capacidade, com alternativas mais completas, e permanente melhoria da gestão de transportes de matéria-prima do campo para a indústria. "No que se refere à cogeração, investimentos terão que ser feitos na aquisição de caldeiras e outros equipamentos mais eficientes, visando maior competitividade de preços no fornecimento da energia às distribuidoras", relata.
O governo federal já está investindo, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), em infraestrutura logística. Os estados que serão beneficiados com mais recursos são Minas Gerais, com R$ 14,7 bilhões até o próximo ano, São Paulo, com a quantia de R$ 13,8 bilhões, Bahia com R$ 12,6 bilhões, Goiás com R$ 8,1 bilhões e Tocantins, com recursos de R$ 7,4 bilhões. Na Bahia, os investimentos estão sendo feitos na construção da ferrovia de integração Oeste-Leste e, no Estado do Tocantins, destaca-se a construção de diversos trechos da porção Norte da Ferrovia Norte-Sul. Em Goiás, os recursos de R$ 8,1 bilhões até 2010 serão destinados à construção do trecho Sul da Ferrovia Norte-Sul e à construção e pavimentação da BR-080, que ligará os municípios goianos de Uruaçu e São Miguel do Araguaia.
Cenários para o Brasil na próxima década
A introdução de medidas para redução de emissão de gases de efeito estufa em todo o mundo e a crescente venda de carros flex têm aumentado a demanda por biocombustíveis e, consequentemente, maior necessidade de matérias-primas para a produção do combustível limpo. A WWF Brasil revela que a cana-de-açúcar será a principal matéria-prima utilizada na produção de biocombustíveis no País. A produção mundial de etanol deverá se aproximar de 141 bilhões de litros em 2020, sendo que, do total, 49,9 bilhões de litros a partir da cana.
O Brasil responderá por 32% do volume total de etanol produzido e por 89% da produção de etanol a partir da cana-de-açúcar. Os dados mostram que, para atender ao crescimento da demanda interna e as exportações, a produção brasileira de cana terá que registrar um crescimento de 217 milhões de toneladas, passando de 624 milhões de toneladas em 2009 para 842 milhões em 2020. Isso resultará no aumento da área plantada, que saltará de 8,2 milhões de hectares em 2009 para 10,4 milhões de hectares em 2020. O avanço da expansão da cana-de-açúcar se concentrará na região Centro-Sul, principalmente nos Estados de Goiás e Mato Grosso, com a instalação de novas usinas. As projeções indicam um crescimento de 42 mil hectares no Mato Grosso, 572 mil no Mato Grosso do Sul e 626 mil hectares em Goiás.
A WWF Brasil projeta, ainda, que o consumo de biodiesel no Brasil deverá saltar de 689 milhões de litros - estimados para 2009 - para 999 milhões de litros em 2020, representando um crescimento de 310 milhões de litros no período. Para atender a demanda, o consumo de óleo de soja – matéria-prima responsável por 80% da produção de biodiesel – passará de 613 mil toneladas até o final de 2009 para 887 mil toneladas em 2020. Será preciso um crescimento de 14 milhões de hectares de área plantada de soja para abastecer o mercado. O estudo mostra que o Brasil terá áreas para suportar o crescimento da agricultura sem precisar expandir a produção para Amazônia e sem desrespeitar a legislação ambiental vigente, principalmente no bioma Cerrado. FONTE: Canal Bioenergia |