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AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS E A SEGURANÇA INTERNACIONAL

 

25/02/2010 - O militar da marinha americana, Vice Admiral Dennis V. McGinn, não sabe o que é aposentadoria. Apesar de já ter deixado o cargo que ocupou por 35 anos, exercendo de tudo – de piloto naval a estrategista de segurança nacional – ele recusa-se a pendurar as chuteiras. Hoje, McGinn dedica-se inteiramente aos impactos palpáveis e urgentes das mudanças climáticas no mundo. Membro do conselho da Center for Naval Analysis (CNA), uma instituição sem fins lucrativos que conduz pesquisas e análises para o serviço público, ele faz palestras e envolve-se politicamente no assunto.

Em 2009, McGinn publicou um boletim que levanta uma grande questão nacional: o problema da energia do país e seu efeito imediato na segurança. Chegou a participar de diversos comitês em Washington que tratam deste problemas. Fã das iniciativas brasileiras em relação à energia e mudanças climáticas, McGinn conversou com o Planeta Sustentável, da Alexandria, na Virginia.

O senhor trabalhou por 35 anos na Marinha. Comente a diferença entre as preocupações com o meio-ambiente e o aquecimento global naquela época em comparação ao envolvimento do exército de hoje?
Grande parte da minha carreira foi marcada pela Guerra Fria. Nos anos 70, os EUA passava por um embargo da OPEC por ter apoiado Israel na Guerra do Yom Kippur, em 1973. Sentíamos vulnerabilidade por causa da nossa dependência por petróleo: os preços subiram, houve falta de gasolina em vários lugares por muito tempo. Naquela década, com o presidente Jimmy Carter, começamos a ter mais seriedade neste assunto e nos tornar menos dependente da OPEC. Com isso, deu-se início ao National Research Institute, que hoje se chama National Renewable Energy, no Colorado, que tem estabelecido novos padrões para os nossos carros e caminhões.

Nos anos seguintes, este deixou de ser o foco. Mas na última década, o assunto voltou a ser prioridade, já que uma série de eventos fizeram os americanos se voltaram para a segurança do país, incluindo o furação Katrina, em agosto de 2005. E quando o IPCC - Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas começou a divulgar seus boletins, as pessoas tornaram-se mais cientes do desafio conjunto para prevenir as mudanças climáticas; um boletim feito em 2007 apontava que energia, mudança climática e segurança nacional estão todos entrelaçados. E esta informação nos deu base para elaborar soluções.

Os soldados estão sendo treinados para lidar com o problema?
Isto está apenas começando. Um dos primeiros impactos das mudanças climáticas no nosso trabalho é o que chamamos de assistência humanitária e ajuda em casos de desastres: enchentes, furacões e qualquer outro acontecimento relacionado ao clima, os EUA e outros países estarão prontos para responder, providenciando água, comida, abrigo e o que for necessário. Isso já tem acontecido há muitas décadas no serviço militar. Mas a diferença é que hoje, mais atenção está sendo aplicada em treinamento por causa do aumento destes casos. Estamos trabalhando com organizações não-militares e também com outros braços do exército internacionalmente para saber o que pode ser feito.

Quais os principais impactos das mudanças climáticas na segurança internacional?
Mudanças climáticas agem como um multiplicador de ameaças em áreas que já são vulneráveis no mundo. Sabemos que há regiões onde há conflitos relacionados a questões políticas, étnicas, econômicas e religiosas. Algumas são centenárias, outras são novas, mas estas tensões e os governos envolvidos nelas, ficarão significantemente mais estressados por alguns efeitos das mudanças climáticas. Por exemplo, enchentes provocadas por rios que transbordam na Ásia, alternando com as épocas de seca. Soma-se isso a falta de condições básicas a populações de governos frágeis e falta de infraestrutura. Então, temos que nos preparar para estas questões de forma inovadora.

E a segurança nacional?
Nos EUA, estamos muito vulneráveis na questão do preço do petróleo – e isso abrange também outras formas de commodities, como carvão, gás natural. E isso tem chamado muito a atenção das pessoas, fazendo com que elas busquem soluções de energia alternativa e fazendo com que consumidores procurem melhores escolhas na hora de comprar um carro, assim como decisões mais prudentes em casa e no trabalho. Isso está acontecendo silenciosamente em alguns estados – primeiramente a Califórnia e, também, Nova York, que estão adotando novos padrões de renovação de energia. Washington, ou seja, os políticos, também estão se mexendo sobre o assunto. Além disso, projetos de energia alternativa estão alcançando escala industrial pela primeira vez. Cada vez mais, consumidores estão utilizando biocombustíveis, como o etanol, em seus veículos. Por mais que estas mudanças estejam acontecendo devagar, elas estão ocorrendo mais rapidamente do que nas últimas três décadas.

Como os militares agem quando estas catástrofes ocorrem?

Um exemplo foi o furacão Katrina, em New Orleans. Aquele furacão foi classificado como categoria 3 – mas ainda pode acontecer um com categoria 4 ou 5. E isso pode prejudicar bastante a exploração de petróleo naquela região, além da capacidade de refinamento. E isso poderia durar meses, causando problemas sérios como falta de combustível e preços altos. Ao mesmo tempo, uma catástrofe como esta precisa de um aumento na ajuda humanitária. Nosso fornecimento de petróleo também pode ser prejudicado por eventos internacionais, como um novo embargo da OPEC, ou o terrorismo na Arábia Saudita. Qualquer elemento destes podem afetar o fornecimento de energia que precisamos.

O senhor não foi a Copenhague, mas acompanhou as negociações. Qual a sua visão sobre o envolvimento dos países?
China, Índia, Estados Unidos e Brasil têm políticas para cortar a emissão de gases de efeito estufa – acho que se construiu um momentum e uma plataforma para discussões. Talvez, ainda este ano, vejamos alguns aspectos obrigatórios sobre estes assuntos. Também acho importante a discussão sobre a criação de um fundo internacional para países em desenvolvimento lidarem como os efeitos das mudanças climáticas, seja para a preservação das florestas tropicais, adaptações para possíveis enchentes ou reparos por causa de eventos dramáticos como o aumento do nível do mar. Os Estados Unidos têm que ser um líder e um parceiro neste esforço internacional. E ter o presidente Obama lá foi muito importante.

Qual a sua opinião sobre as iniciativas brasileiras?
No Brasil, houve um tremendo progresso, ao longo dos últimos anos, no que diz respeito a sustentabilidade e muito menos dependência em combustível fóssil, criando um mix maior de fontes energéticas, e também o fato de o pais estar exercendo um papel de líder em energia e mudanças climáticas é algo bastante positivo.

O Al Gore disse, recentemente, que o mais difícil sempre será mudar o hábito das pessoas. Muitas ainda têm três carros na garagem, por exemplo. Este será realmente um dos maiores desafios?
Sim, mas vejo que o consumidor comum já está mudando. Não apenas para economizar na conta de energia e combustível em casa, mas para economizar no custo ecológico local, regional e global. Estamos começando um caminho jamais explorado em termos de consciência pessoal e familiar sobre o assunto. Quando vamos ao supermercado, vemos mais e mais os “produtos verdes” nas prateleiras – trata-se da indústria criando produtos que se encaixam na mentalidade dos americanos de hoje. As pessoas estão cada vez mais atentas e ativas, mudando, aos poucos, seus estilos de vida em prol de uma causa.

Links da matéria:
CNA - Center for Naval Analysis
National Renewable Energy
IPCC - Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas

FONTE: Planeta Sustentável

 
  
  
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